Um tal país do sexo

 

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“Travesti de lambada e deusa das águas”, de Bia Leite, 2013. Obra que estava na exposição ‘Queermuseu’. DIVULGAÇÃO

Brasil não é (apesar do que muitos gringos pensam) e nunca era o país do sexo. Num país do sexo de verdade, se discutiria coisas mais interessantes do que como um sexo heterossexual sabor de baunilha é bom, ou se a traição é culpa do traidor ou do traído. Se discutiria coisas mais interessantes do que se alguém está fazendo sexo com todos ou não está fazendo sexo com ninguém. Se encontraria palavras mais interessantes e mais adequados para descrever o sexo do que ‘natural’. Se discutiria o que significa sentir atraído por uns e não por outros e por que, além de alguma estética supostamente universal ou o bom senso de quem nos curte e a falta de bom senso em quem não. Se discutiria porque um ato entre dois vira da conta de todos e acaba construindo ou destruindo capital social. Se discutiria como fazer um sexo que enaltece e não rebaixa. Se discutiria a inevitabilidade de pessoas diferentes terem gostos diferentes e a obrigação de conviver com isso no âmbito social. A arte pode ajudar a fomentar essas conversas mais interessantes, mas somente se as pessoas estiverem dispostas a conversar.

Sim, certas coisas não deveriam ser aceitas como a pedofilia, a zoofilia ou o estupro mas sem a capacidade de sequer conversar sobre elas, se desvia o olhar do mal, se perde a capacidade até de dizer o por que e de onde provém, se inventa qualquer desculpa fácil e mais alguns inocentes se fodem.

Não podemos perder de vista que viver numa sociedade necessariamente significa ser exposto a cada conversa sem noção com cada pessoa tão nada a ver que nenhum de nós consegue imaginar todas — para senti-lo é só dar uma olhada na música tosca no playlist da pessoa ao lado ou os videos idiotas que assistem antes de dormir. Ou tomamos isso como uma oportunidade para renovarmos nosso pacto com o amor alheio, criarmos novos laços e construirmos uma sociedade melhor ou o usamos como justificativa para a crueldade interna de cada um.

O país do sexo morreu. Viva o país do sexo.

A raiva do mundo

Singer_Sargent,_John_-_Orestes_Pursued_by_the_Furies_-_1921

A raiva do mundo
é a raiva do mundo
é a raiva do mundo
na distância se ouve algo
é a raiva do mundo

Uma criança pisa em cima de um brinquedo
e chora
é a raiva do mundo

Uma moça rouba 3 pães, 2 maços de cigarro, uma lata de leite moça
e corre
é a raiva do mundo

Um homem compra uma passagem sem volta para Indonésia
e traga
é a raiva do mundo

Dois gatos quaisquer transam em frente da janela
e gritam
é a raiva do mundo

Aquela estátua ali do cavalo com a consciência pesada
é a raiva do mundo

O jornal jogado no chão e os cacos de vidro
é a raiva do mundo

E o ralo
os buracos
furacões
corações parados
sem saldos e vazios
água de borracha
fumaça
açúcar de plástico
garganta entupida
com Deus sabe o que
mais um abraço de chumbo
escorrendo para abaixo
encontro cancelado
com o cafeteiro do lado
mais a cinza dentro da barriga

E eu, sujo, queimado e desarmado, minto para o chefe
e durmo
é a raiva do mundo

A chuva

O horror está nos olhos

A lâmina fria arde na mão. Está quase na hora, e começo a estremecer. Não lhe resta muito tempo. Uma piscadinha de luz balança na parede antes das trevas voltarem a reger.

Até o perdoaria se a ofensa não fosse tão grave. Não sou severa por natureza. Quando atrasou por conta da chuva, compreendi. A vida é mesmo imprevisível. Não peço que ele possa controlar o tempo.

Tudo bem, quis esperar passar. Eu mesma não faria diferente. As estradas viram um túmulo nessas horas. Só precisa errar uma vez. Voando no vento, a vida é um fio frágil, impossível de segurar. Sobe e cai ao seu próprio ritmo.

Sabia que minha mãe morreu assim? Um caminhão fechou o carro dela. Pois é! Perdeu controle, Deus guarde a sua alma. Sei quão perigoso pode ser.

Mas um pouco de juízo não faria mal. Precisava sair da van naquele momento? Entendo que a fome não tem hora. Mas tava chovendo! Não seria melhor ficar onde estava?

Encontrou um restaurante duzentos passos para frente, e resolveu parar para comer e trocar uma ideia com a garçonete. Ainda me contou todas as carnes ‘gostosas’ que tinha para escolher: alcatra, lagarto, costela, picanha, coração… Quebro corações por onde ando, me falou rindo.

Acha que sou trouxa?

Vai puxar saco de vagabunda do capeta enquanto a chuva engole tudo e todos? Vou te falar uma coisa, os homens de hoje em dia não valem nem a cutícula do meu pé. É só passar um rabo de saia que esquece o próprio nome. Só Jesus na causa.

E cadê a van?

Não teve como; desapareceu na chuva. Ainda contou do ‘acidente lamentável’ com aquele sorriso idiota. As pessoas não pensam. Será que contratei ele para comer garçonetes na estrada?

Vai aprender logo cedo, que a vida não é uma brincadeira, não. Se cuspir no olho de alguém, vai ter que pagar as consequências. Não ganhei aquela mercadoria toda do Papai Noel, e odeio decepcionar meus clientes.

Só não entrego pessoalmente por causa do médico. Ele acha que não deveria fazer viagens transnacionais com minha idade. Eu mandaria ele calar a boca, mas sou uma mulher de família. Pode perguntar qualquer amigo meu. Sempre trato os outros com respeito. Que nem o Sérgio!

Aquele magrelo ridículo vivia bebendo e fumando na porta da igreja do Pastor Marcelo. Me deixava muito mal. Mas não xinguei ou gritei. Não fiz um escândalo para todo mundo ver, pois não é assim que as coisas funcionam. Só olhei direto na cara dele, disse que tinha que ir embora e se foi. Simples assim. Levo esse negócio de respeito a sério.

Meus filhos nunca entenderam. Preferem curtir. Preferem bagunçar. Não pensam em construir algo que dure. Não percebem que sem o respeito, não somos nada. A vida nos tem pendurados à beira do caos. Um sopro alheio é o suficiente.

Fechei meus olhos e aguardei em silêncio. O moço não parava de falar. Pedia desculpas. Prometia que mesmo se nevar, nenhum outro pacote iria escapar-lhe. Me abraçava e sorria. Aqueles dentes amarelos, aquelas mãos sujas e suadas, aquele fedor… Seria eu capaz de perdoar?

Os faróis do carro iluminam a sua casa. Espero ele descer. Parece que está rindo de uma piada que não tem graça.

Espero mais um pouco. As sombras ressaltam do corpo dele com cada passo, numa fútil ginástica secular.

Chega perto, e desacelero minha respiração. Se ouve um trovão na distância. Quando ele vira, já estou pronta. A faca quase voa fora da minha mão. Está começando a chover. Olho para o céu e sorrio. Não se pode parar a chuva quando Deus manda cair.

FAQ #2 – Gringo safadinho

FAQ #1