Um tal país do sexo

 

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“Travesti de lambada e deusa das águas”, de Bia Leite, 2013. Obra que estava na exposição ‘Queermuseu’. DIVULGAÇÃO

Brasil não é (apesar do que muitos gringos pensam) e nunca era o país do sexo. Num país do sexo de verdade, se discutiria coisas mais interessantes do que como um sexo heterossexual sabor de baunilha é bom, ou se a traição é culpa do traidor ou do traído. Se discutiria coisas mais interessantes do que se alguém está fazendo sexo com todos ou não está fazendo sexo com ninguém. Se encontraria palavras mais interessantes e mais adequados para descrever o sexo do que ‘natural’. Se discutiria o que significa sentir atraído por uns e não por outros e por que, além de alguma estética supostamente universal ou o bom senso de quem nos curte e a falta de bom senso em quem não. Se discutiria porque um ato entre dois vira da conta de todos e acaba construindo ou destruindo capital social. Se discutiria como fazer um sexo que enaltece e não rebaixa. Se discutiria a inevitabilidade de pessoas diferentes terem gostos diferentes e a obrigação de conviver com isso no âmbito social. A arte pode ajudar a fomentar essas conversas mais interessantes, mas somente se as pessoas estiverem dispostas a conversar.

Sim, certas coisas não deveriam ser aceitas como a pedofilia, a zoofilia ou o estupro mas sem a capacidade de sequer conversar sobre elas, se desvia o olhar do mal, se perde a capacidade até de dizer o por que e de onde provém, se inventa qualquer desculpa fácil e mais alguns inocentes se fodem.

Não podemos perder de vista que viver numa sociedade necessariamente significa ser exposto a cada conversa sem noção com cada pessoa tão nada a ver que nenhum de nós consegue imaginar todas — para senti-lo é só dar uma olhada na música tosca no playlist da pessoa ao lado ou os videos idiotas que assistem antes de dormir. Ou tomamos isso como uma oportunidade para renovarmos nosso pacto com o amor alheio, criarmos novos laços e construirmos uma sociedade melhor ou o usamos como justificativa para a crueldade interna de cada um.

O país do sexo morreu. Viva o país do sexo.

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