A chuva

O horror está nos olhos

A lâmina fria arde na mão. Está quase na hora, e começo a estremecer. Não lhe resta muito tempo. Uma piscadinha de luz balança na parede antes das trevas voltarem a reger.

Até o perdoaria se a ofensa não fosse tão grave. Não sou severa por natureza. Quando atrasou por conta da chuva, compreendi. A vida é mesmo imprevisível. Não peço que ele possa controlar o tempo.

Tudo bem, quis esperar passar. Eu mesma não faria diferente. As estradas viram um túmulo nessas horas. Só precisa errar uma vez. Voando no vento, a vida é um fio frágil, impossível de segurar. Sobe e cai ao seu próprio ritmo.

Sabia que minha mãe morreu assim? Um caminhão fechou o carro dela. Pois é! Perdeu controle, Deus guarde a sua alma. Sei quão perigoso pode ser.

Mas um pouco de juízo não faria mal. Precisava sair da van naquele momento? Entendo que a fome não tem hora. Mas tava chovendo! Não seria melhor ficar onde estava?

Encontrou um restaurante duzentos passos para frente, e resolveu parar para comer e trocar uma ideia com a garçonete. Ainda me contou todas as carnes ‘gostosas’ que tinha para escolher: alcatra, lagarto, costela, picanha, coração… Quebro corações por onde ando, me falou rindo.

Acha que sou trouxa?

Vai puxar saco de vagabunda do capeta enquanto a chuva engole tudo e todos? Vou te falar uma coisa, os homens de hoje em dia não valem nem a cutícula do meu pé. É só passar um rabo de saia que esquece o próprio nome. Só Jesus na causa.

E cadê a van?

Não teve como; desapareceu na chuva. Ainda contou do ‘acidente lamentável’ com aquele sorriso idiota. As pessoas não pensam. Será que contratei ele para comer garçonetes na estrada?

Vai aprender logo cedo, que a vida não é uma brincadeira, não. Se cuspir no olho de alguém, vai ter que pagar as consequências. Não ganhei aquela mercadoria toda do Papai Noel, e odeio decepcionar meus clientes.

Só não entrego pessoalmente por causa do médico. Ele acha que não deveria fazer viagens transnacionais com minha idade. Eu mandaria ele calar a boca, mas sou uma mulher de família. Pode perguntar qualquer amigo meu. Sempre trato os outros com respeito. Que nem o Sérgio!

Aquele magrelo ridículo vivia bebendo e fumando na porta da igreja do Pastor Marcelo. Me deixava muito mal. Mas não xinguei ou gritei. Não fiz um escândalo para todo mundo ver, pois não é assim que as coisas funcionam. Só olhei direto na cara dele, disse que tinha que ir embora e se foi. Simples assim. Levo esse negócio de respeito a sério.

Meus filhos nunca entenderam. Preferem curtir. Preferem bagunçar. Não pensam em construir algo que dure. Não percebem que sem o respeito, não somos nada. A vida nos tem pendurados à beira do caos. Um sopro alheio é o suficiente.

Fechei meus olhos e aguardei em silêncio. O moço não parava de falar. Pedia desculpas. Prometia que mesmo se nevar, nenhum outro pacote iria escapar-lhe. Me abraçava e sorria. Aqueles dentes amarelos, aquelas mãos sujas e suadas, aquele fedor… Seria eu capaz de perdoar?

Os faróis do carro iluminam a sua casa. Espero ele descer. Parece que está rindo de uma piada que não tem graça.

Espero mais um pouco. As sombras ressaltam do corpo dele com cada passo, numa fútil ginástica secular.

Chega perto, e desacelero minha respiração. Se ouve um trovão na distância. Quando ele vira, já estou pronta. A faca quase voa fora da minha mão. Está começando a chover. Olho para o céu e sorrio. Não se pode parar a chuva quando Deus manda cair.

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